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Retrospectiva: Legacy of Kain Parte I – Blood Omen (PSX,PC,PSN)

The descent had destroyed me… and yet, I lived.

E é assim que se inicia a saga de Kain, ou pelo menos é assim que a SquareEnix a quer iniciar com o reboot de Soul Reaver que está a ser trabalhado pelos estúdios da Crystal Dinamics, o mesmo grupo responsável pelo jogo original (bem, pelo menos o nome dos estúdios é o mesmo). A ressuscitação está prevista para depois do reboot de Tomb Raider, claro.

O Legado

Mas a saga de Kain não se iniciou com Soul Reaver mas sim com Legacy of Kain: Blood Omen, um clone de Zelda mais negro e ambicioso, lançado em 1996 para a Playstation e em 1997 para Windows pelas mãos da Silicon Knights. Estava prevista uma versão para a SEGA Saturn, mas nunca se chegou a concretizar.

Blood Omen, originalmente conhecido pelo título mais literário de The Pilars of Nosgoth, foi concebido por Denis Dyack como um jogo de acção mais cerebral que tomasse lugar num mundo de fantasia negro com uma complexidade digna de um bom livro.

O desenvolvimento do jogo atrasou-se enquanto a equipa esperava por uma consola apropriada à sua visão e, eventualmente, contou com a ajuda da Crystal Dinamics para o acabar de produzir. Foi esta parceria inicial que levou à criação da actual saga de Kain, pois o jogo original não tinha sido criado com sequelas em mente, e muito menos com a eventual história épica (e confusa) de Soul Reaver.

A Demanda de Kain

Legacy of Kain: Blood Omen inicia-se com uma visão de um céu vermelho e um campo repleto de corpos mutilados, seguido de um texto com uma história de fundo que explica o porquê deste massacre. O mundo de Blood Omen, Nosgoth, é uma espécie de versão negra da Europa medieval e, embora a magia e seres sobrenaturais existam, esta não é a vossa típica terra de fantasia. Conceitos como a pobreza, corrupção, ganância ou racismo não são desconhecidos à população desta terra negra e o tom das criaturas que encontrarão ecoa mais histórias de terror clássicas do que Tolkien.

A introdução continua e o texto é seguido de uma outra animação crude em CGI, mas complexa para a época em termos narrativos, em que uma espécie de castelo/santuário é atacado por um poderoso ser humanoide que acaba por assassinar todos os monges lá situados.

500 anos passam e a nossa história começa encarnando Kain, um membro nobre da sociedade, egoísta e ignorante, que acaba por conhecer o seu fim às portas de uma taverna, de noite, pelas facas de um bando de ladrões. Podem lutar com os ladrões mas o vosso destino já foi traçado e eventualmente Kain morrerá.

Mas a história de Kain ainda está longe de ter terminado. O nosso “herói” acorda no que só pode ser considerado como o Inferno, preso e frente a um mago chamado Mortanius que não parece estar nem morto nem vivo, que lhe dá uma proposta que não poderá recusar: A oportunidade de ser ressuscitado e de se poder vingar do bando de ladrões insignificantes que lhe tiraram a vida injustamente.

Kain, que é egoísta e impaciente, aceita a oferta, ignorante dos motivos do mago ou dos custos da sua nova vida.

Nosgoth, Terra Negra

Finalmente Kain acorda para uma nova vida, dentro de um caixão num Mausoléu no meio de uma floresta, e com uma sede literal de vingança.

O vosso santuário.

É nesta dungeon que começamos o jogo, desta vez a sério, e é aqui que começamos por tomar nota da fantástica atmosfera com que a Silicon Knights nos presenteou, e nos perguntamos o porquê de não haver mais jogos como este. Blood Omen é um clone de Legend of Zelda: A Link to the Past, e faz um bom trabalho em copiar as mecânicas da série da Nintendo, mas os sprites pré-renderizados (pensem num Donkey Kong Country com um baixo orçamento) das personagens e os movimentos extremamente lentos e irregulares do protagonista fazem deste um jogo estupendamente datado nos dias de hoje. E não é só isto. Se já leram o meu artigo sobre o Beyond Good & Evil então já sabem que, embora eu compreenda as qualidades do Legend of Zelda, a série não me cativa muito.

Mas tal como BG&E, Legacy of Kain conseguiu-me agarrar, apesar de ser datado, graças à sua excelente atmosfera que me imergiu completamente no mundo de Nosgoth desde os primeiros segundos de jogo.

Embora seja um jogo de 1996, Legacy of Kain tem voice acting com fartura e até a ocasional cutscene, que, ao contrário de outros jogos da altura que ainda estavam a apanhar o jeito da tecnologia dos vídeos em FMV, serve aqui para avançar a história e não apenas para mostrar uma cena de transição.

A vossa aventura pelo mundo de Nosgoth é um pouco mais linear que a de Link (o elfo de Zelda para os mais desatentos) e é uma busca pela verdade, que vos vai levar de pessoa em pessoa, numa espécie de investigação, à procura da redenção, enquanto que Kain, com a voz emprestada de Simon Templeman, narra tudo o que encontram pela frente. Isto, juntamente com a atmosfera sombria e macabra de Nosgoth, dá um ar um pouco noir ou mais pessoal à história de Kain e mais uma vez contribui imenso para o ambiente imersivo do jogo e para que o jogador se identifique com a demanda solitária deste vampiro.

Os pilares de Nosgoth

O mundo de Nosgoth, que faz lembrar algum vale perdido no norte da Europa, é sombrio, e mesmo de dia continuam a passear por florestas em tons de cinzento, como se Nosgoth estivesse perpétuamente coberta por nuvens de chuva, o que dá ao jogo um tipo de ambiente sombrio que simplesmente não encontramos num Zelda ou Elder Scrolls. Na maior parte dos RPGs até este ponto estávamos resignados a começar em Hobbitton e a acabar na Terra dos Vulcões Malvados e raro era o jogo que tinha um aspecto tão conciso como Blood Omen aspirava.

Nosgoth tem um tom geral muito sombrio e quase cinzento (que mais tarde viria a ser ainda mais acentuado em Soul Reaver) que conta também com a ajuda de uma banda sonora assombrosa e eficaz da autoria de Steve Henifin e vozes de excelente qualidade de modo a imergir facilmente o jogador naquele mundo.

Hoje em dia é um dado garantido, mas em 1996, tanto devido aos CDs de grande capacidade serem ainda uma coisa recente ou devido ao baixo orçamento da produção de jogos na altura, eram raríssimos os jogos que se podiam gabar de possuírem voice acting, ainda para mais profissional. Mas Denis Dyack queria uma história complexa, um Zelda para adultos com uma narrativa digna de um livro, e não se poupou a esforços para trazer talento para dar a voz às personagens desta história. Ao longo da vossa demanda pelo mundo de Nosgoth, narrada por “vocês”, o Kain de Simon Templeman, vão se deparar com personagens excelentemente interpretadas por Tony Jay, Paul Lukather, Richard Doyle, Anna Gunn e Neil Ross (se bem que estas falam num tom decididamente “Shakespeare”).

A saga de Legacy of Kain vale-se pela sua narrativa cuidada e personagens complexas e foi neste aspecto que se tornou um marco (e infelizmente ainda uma raridade) na história dos videojogos. Não só conhecemos Kain como um anti-herói egoísta que luta contra a crescente sede do vampirismo, como as personagens que vamos encontrando ao longo da aventura são complexas e nem sempre se situam num extremo de moralidade.

Não há quem tenha jogado a este título e não reconheça o grito de guerra que Kain ocasionalmente entoava  com a morte de um inimigo: “Vae Victis!

Os Pilares de Nosgoth

Como já disse à uns parágrafos atrás, a jogabilidade de Blood Omen foi modelada a partir do clássico da Nintendo Legend of Zelda: A Link to the Past, se bem que desta vez o percurso que seguimos é mais linear e o habitual saco de itens que Link usa para resolver puzzles foi substituído aqui por um menu em forma de cruz com várias habilidades mágicas.

Enquanto que Link valia-se de uma bomba bem colocada para abrir um buraco numa parede ou de um livro para descodificar uma inscrição num pedestal, de modo a resolver enigmas e chegar a novas salas de uma qualquer masmorra lendária, Kain vale-se antes dos seus variados poderes vampíricos, contando com um para cada situação, e relegando os itens para segundo plano, noutro menu separado também em forma de cruz, apenas para recuperar vida com um frasco de sangue ou atingir um inimigo mais chato com um disco afiado de metal.

A cruz de poderes/itens.

Vão poder adquirir estes poderes na vossa demanda, à medida que exploraram templos específicos e os “desbloqueiam”. Estes tomam a forma de poderes ou transformações vampíricas que vos dão, tal como em Zelda, a possibilidade de ultrapassar áreas anteriormente bloqueadas. Vão ter a possibilidade de se transformarem num rápido e ágil lobisomem ou numa nuvem de vapor, ou de lançar projécteis de electricidade (sim, os vampiros fazem isso) para activar portas.

A masmorra do poder de raios.

Vão acabar por ficar com três menus em forma de cruz. Um para poderes vampíricos, outro para transformações e por fim um último que serve como um “saco” para os vossos itens.

Uma espada nova. Kain dá sempre uma descrição por voz do vosso equipamento.

Tal como num RPG, ao longo do jogo vão também encontrar armaduras e espadas que, tal como os poderes de Kain, são mais apropriadas a certas situações, não sendo uma armadura obrigatoriamente melhor que outra. Também como num RPG, eventualmente encontrarão fontes de sangue. Estas estão localizadas em várias cavernas escondidas pelo mapa e aumentam a vossa barra de vida, ou como quem diz, o vosso frasquinho de sangue.

A Fonte de Sangue. Depois de um gole, torna-se preta e tira-vos vida se decidirem beber outra vez.

De resto, este é o vosso típico jogo visto de cima do estilo Zelda. Tal como já tinha dito, os modelos renderizados das personagens envelheceram mal mas os cenários são, na maior parte, de qualidade decente. Infelizmente este é um daqueles jogos antigos com um protagonista que se move a passo de caracol (eram outros tempos, quando havia mais paciência) e o aspecto datado das personagens e as suas animações de poucos frames fazem deste um jogo realmente muito datado.

No entanto, se forem como eu e se já se fartaram das típicas narrativas da maior parte dos videojogos que andam por ai, dêem uma oportunidade a Legacy of Kain. Com uma boa disposição, paciência e uns phones no ouvido também se vão imergir no mundo macabro de Nosgoth, e vão sair desta experiência com um sorriso na cara e preparados para acompanhar Raziel, um dos sargentos de Kain, também ele numa demanda de vingança, em busca do seu mestre.

Epilogo

Juntem-se a mim para a próxima parte desta retrospectiva e juntos saltaremos para o Lago dos Mortos para darmos uma olhadela ao outro lado saga de Kain e do mundo de Nosgoth, e a expansão épica do que seria originalmente um jogo com uma história independente. Agarrem as vossas almas que vai ser uma viagem convulsa.

Links

A versão Windows do jogo encontra-se hoje em dia como abandonware, ou seja, é agora grátis ao público. Existem várias versões na internet. Tenham só o cuidado de fazerem o download da versão completa, e não da RIP, que remove os vídeos e pesa apenas 78 mb.

Só vão precisar também deste novo e simples instalador:

1. Um programa que permite instalar o jogo em sistemas operativos recentes. Instalem o jogo com este instalador e não com o original!

e, se tiverem problemas:

2. Este patch adiciona ao jogo original suporte para vídeos no formato .bik. O segundo converte os vídeos para o formato .bik. Se tiverem dúvidas, chamem-me.

3. Este patch pode ser preciso se a certa altura o jogo bloquear ou começar a correr demasiado rápido. Blood Omen não está preparado para processadores mais recentes, e isto permite-vos emular um processador mais lento.

No entanto, eu joguei sem problemas à versão PC, sem problemas com a frame rate ou vídeos. Portanto só precisei do instalador novo.

Podem também simplesmente jogar à versão Playstation, seja na consola ou num emulador.

Mais links:

Legacy of Kain: Blood Omen no IMDB

Blood Omnicide, um remake impressionante de Blood Omen numa versão modificada do motor de Quake!

The Lost Worlds, um site fantástico com muita informação relativa à criação dos jogos da série. A não perder!

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8 comments on “Retrospectiva: Legacy of Kain Parte I – Blood Omen (PSX,PC,PSN)

  1. Muito Boa esta review!! também à relativamente pouco tempo tive a minha 1ª experiência com este jogo (puxado um pouco pela curiosidade do seu sucessor Soul Reaver) e achei um jogo fenomenal. Possivelmente terá sido um jogo fora de série na altura em que saiu. e mesmo nos dias de hoje este jogo era perfeitamente digno de um remake devido à sua originalidade e mecânica. Chegaste até ao final? o jogo não é pêra doce ! =P

    P.S. o Kain é benfiquista! enquanto ele mata os adversários chega a gritar pelo clube: BEN-FICA xD

    • Não é à toa que o sangue dele é vermelho… XD

      Também já tinha lido a review ao jogo no Game Chest à uns meses atrás (curiosamente pouco depois de começar a pesquisar pelo jogo na net) e também já dava um resumo muito bom do jogo mas ainda não o acabei. Estou mais ou menos a meio acho eu.
      Um dia destes estava a ouvir a banda sonora do Soul Reaver, à noite, (claro, para ter pesadelos) e deu-me vontade de escrever uma retrospectiva da série que fala-se muito das influências dos jogos, do ambiente, da criação dos jogos, do voice acting, etc e menos da jogabilidade (que nem era para incluir aqui mas inclui e assim fiz disto uma espécie de retrospectiva).

      Sinceramente, só pelo ambiente do jogo podia ter incluido o blood omen e soul reaver no meu top 10 como menções honrosas ou qualquer coisa xD.

      Também estou curioso para ver qual é o vosso Top 10. Colin Mcrae Rally para mim ainda continua, juntamente com o 2.0 e o 4 a ser melhor que o Dirt. Não tenho jogos de carros (só o outrun 2006) no meu top 10 mas se tivesse o CMR e o Toca WTC estavam lá de certeza!

  2. Esse top ainda está a ser construído e é em base das reviews que já foram feitas no blog ;P, portanto não será um “Ultimate Top10”.

    Mas curiosamente, Soul Reaver é um jogo que apesar de conhecido e bem cotado pela imprensa, não é um jogo que apareça muito nas preferências dos gamers. É um jogo que vou de certeza pegar com atenção e fazer uma review dele.

    Mas fizeste uma excelente escolha para retrospectiva 😉

    • Realmente é estranho não ser um jogo mais lembrado. Na altura era a coisa mais cool em existência (pelo menos para mim que não parava de fazer desenhos do Raziel) e o jogo recebeu grandes notas.

      Tirando os controlos um bocado “digitais” (mesmo com o analógico) o jogo era uma evolução do Tomb Raider muito boa, e mesmo com o backtracking ainda era muito menos aborrecido que o Soul Reaver 2 e depois ainda tinha segredos que podias encontrar quando voltavas a áreas anteriores, um mundo aberto, etc.

      O jogo foi um espectáculo na altura mas muita gente deve ter pensado que era só um clone de Tomb Raider.

  3. Olha, devo dizer que me convenceste a pegar na série. A versão Dreamcast do Soul Reaver vale a pena?

    • “Olha, devo dizer que me convenceste a pegar na série.”

      Óptimo 😀 É sinal que ando a conseguir explicar o porquê de gostar destes jogos.

      A versão Dreamcast é a melhor versão do jogo. Corre a 60 fps e não tem os bugs da versão PC. É um port de primeira geração para a DC por isso não estejas à espera de adições especiais mas é realmente a melhor versão do jogo.

      Também ando a escrever um artigo sobre o Soul Reaver que mais tarde irei postar aqui por isso não percas esse também 😛

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